Mas por que participar de uma comunidade ?

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Mas por que participar de uma comunidade ?

“A força da inteligência coletiva de uma rede é sempre maior que a força de um único ponto ou nó, pois todo o saber está na humanidade.” (Ronald Costa, 2014)

Certo dia, recebi esse questionamento de um aluno. Por que participar de uma comunidade de Software Livre (SL) ou Tecnologias Abertas? Fiquei pensando. Como formular uma resposta adequada?

A resposta mais rápida que me veio à mente foi que se trata de um ato de participação social! Sim, pois como cidadão todos desejamos contribuir para que as novas tecnologias, como ferramentas livres e abertas, ampliem a cidadania e a participação efetiva da sociedade em seu próprio desenvolvimento. Porém, talvez, para alguns estudantes, essa não seja a resposta mais motivadora, embora, eu realmente achasse que deveria ser.

Avançando em nossa reflexão, a resposta dessa pergunta dá todo o sentido para a existência do Software Livre e para a necessidade de aproximá-lo ainda mais da Educação. Essa corrente de pensamento nasceu a partir da proposta de liberdade, onde se pode: copiar, estudar, modificar e redistribuir um software. Ela apresenta ao usuário novas possibilidades. E por que não experimentá-las no contexto educacional?

O Software Livre permite ao cidadão, além da possibilidade de uso, a opção de participar da construção do software. É claro que a participação nessa construção depende de interesse, conhecimento e curiosidade. Esse é um detalhe importante. De maneira diferente do modelo proprietário tradicional, neste caso, o usuário de SL pode se tornar autor e criar novas tecnologias inovadoras. Pode experimentar, abrir e ter acesso à receita do bolo, ou seja, pode conhecer realmente como as coisas funcionam naquela tecnologia aberta. Ao usar um Software Livre no Ensino Superior abrimos a possibilidade de iniciar um círculo virtuoso de colaboração e de construção de novos conhecimentos dentro do contexto educacional. Podemos a partir de tecnologias abertas agregar valor ao processo de construção do conhecimento.

As novas tecnologias surgem a partir do processo de inovação e de curiosidade. Surgem da necessidade de resolver problemas. São o motor do crescimento e a porta para a oportunidade de mudança e crescimento, especialmente para países que atualmente estão na condição de meros mercados consumidores. A lógica global impõe que alguns países produzam tecnologias e outros sejam simples espaço de adoção e uso dessas tecnologias. Faça uma rápida reflexão: O que você pode fazer com um Software Proprietário? A resposta é clara: Apenas utilizar. Ser um bom, ótimo e excelente usuário! Nada mais que isso. É saber usar e nada mais. É apenas consumir…

A lógica mercantilista do ambiente proprietário e sua forma de licenciamento não nos permite estudar o seu funcionamento, colaborar, criar ou inovar tendo por base o software comprado (a tecnologia adquirida). Não há como compartilhar ou redistribuir modificações. Estaríamos incorrendo no crime de contrafação (pirataria). É claro que a realidade hoje, comumente aceita em nossa sociedade (ainda que não declarada) é usar, mesmo que pirata. Em nosso cotidiano temos acesso fácil a feirinhas de importados, downloads e cópias não autorizadas. Quem não usou um software sem licença, ou fez um download de um filme em torrent que atire a primeira pedra. Fácil não? Ético? Claro que não. Agora, pensando pela ótica do grande fabricante isso é o que há de melhor! Afinal, quanto mais pessoas usam e experimentam, ainda que por meio de uma cópia pirata ou desautorizada, e se tornam condicionados e dependentes desse produto, melhor! A lógica do vício e de da dependência se consolida. A lógica do experimentar com baixa ou nenhuma qualidade. Saciar a necessidade pura e simples de burlar regras ou se colocar no mercado como um excelente usuário de tecnologias prontas. Não há necessidade de ao menos compreender o que está fazendo. Só sei usar esse, diz o aluno. “Por que vou reaprender tudo? Não tenho de compreender como tudo funciona! Esse é só usar! Esse todo mundo usa”. Não há nada errado em usar uma tecnologia, mas não podemos pensar apenas em ser usuários.

Não é incomum receber na coordenação de um curso superior tecnológico a proposta para afiliar a Instituição de Ensino Superior à diversas “parcerias” para uso liberado (gratuito ou com diversos benefícios de licenciamento) de softwares proprietários. É um momento ímpar, onde o mercado vislumbra a possibilidade de perpetuar seu ciclo de vendas. Afinal, aluno formado em ferramenta, acaba pelo menos endossando a compra desse mesmo software quando estiver no mercado de trabalho. Mas a academia não é para formar profissionais que conheçam os conceitos e o por que as coisas funcionam de determinada forma? Para construir novos conhecimentos, novas tecnologias e inovar? Ou é para capacitarmos apenas em ferramentas? Formar excelentes usuários ou consumidores?

A pergunta feita no início é a base para a continuidade e sustentação do Software Livre. Não basta apenas usar. É preciso participar. É preciso colaborar, contribuir e devolver alguma contribuição pelo que foi utilizado. É preciso reinventar, transformar, mixar! Precisamos abrir novas frentes de continuidade de trabalhos já iniciados. É preciso dar asas à imaginação e contribuir com a retroalimentação desse processo. Precisamos quebrar a barreira do apenas usar, condicionamento adquirido com o software proprietário e com a lógica de mercado consumidor, e passar ao participar, colaborar e contribuir efetivamente. Mas como mudar esse comportamento? Como mudar essa cultura? Penso que, como educador, isso deva começar realmente na Educação, em todos os níveis.

Como professor acredito no processo educacional. Apresentar aos alunos esse processo colaborativo de estudo, de construção e compartilhamento de conhecimento em nosso ambiente educacional é fundamental. Precisamos transpor a filosofia do Software Livre para o processo educacional. Nada como promover e envolver o corpo discente e docente em atividades que respirem esse sentimento e que demonstrem aos alunos e aos professores que colaborando e compartilhando conhecimento vamos muito mais longe e aprendemos muito mais. A curiosidade se aguça quando podemos ver como tudo funciona. O emprego de ferramentas livres em todos os contextos educacionais, desde a construção de textos em disciplinas, como para debates, desenvolvimento colaborativo, para modelagem de processos, projetos, redes, administração de servidores e tudo mais que for possível. Não é apenas usar, e ir além. É tentar contribuir para alguma comunidade. É devolver algo. É permitir ao aluno construir e colaborar nesse processo.

Eventos e comunidades de tecnologias abertas permitem que o aluno vença suas barreiras e medos, seja como autor, palestrante, guia ou instrutor (oficineiro no jargão das comunidades de prática) ao compartilhar um pouco do seu conhecimento já aprendido. Permite atingir a transdisciplinaridade, ao ter contato com outras perspectiva para além da sala de aula. Quando um professor demonstra as possibilidades de uma tecnologia aberta ao aluno e o que pode ser construído e reconstruído a partir dela, está quebrando o círculo vicioso do “mero usuário” e da “lógica do mercado”, demonstrando como seu discente pode fazer parte de um novo círculo virtuoso das tecnologias abertas.

O estudo com participação real em comunidades de SL permite a construção colaborativa de respostas à problemas e a materialização da ajuda mutua, ou seja, eu ajudo e recebo ajuda (círculo). Esse caminho leva o aluno a outros níveis de colaboração, percepção e construção do conhecimento. É o aprender a aprender se concretizando. É ter a certeza de que o aprendizado não tem fim. As comunidades, os grupos, as redes de estudo são vitrines concretas para que o estudante demonstre seu potencial. São nelas que eles se apresentam ao mercado, buscam oportunidades, constroem sua imagem profissional, estabelecem relações construtivas com outros profissionais e visualizam o que ocorre realmente no mercado profissional. Verificam o que o mercado espera em termos de competências e habilidades.

Não basta apenas falar sobre o uso de tecnologias abertas e software livre no ensino superior. Precisamos ir além, e demonstrar que sua filosofia também pode ser aplicada na Educação. Nosso aluno do ensino superior não pode ser apenas um mero usuário. Ele precisa conhecer os princípios que estão envolvidos em sua construção de conhecimento aberto. As ferramentas ajudam, ainda mais quando são abertas, éticas e livres! As comunidade também contribuem nesse processo de aprendizado e renovação. A manutenção e o crescimento das tecnologias abertas como base tecnológica também dependem do nosso envolvimento como cidadãos. O Software Livre e as tecnologias abertas crescem a partir das participações e contribuições. Precisamos avançar!
Prof. Ronald Costa


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Nasce um Coletivo Digital para Inovação com Tecnologias Abertas

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A Intenet e as novas tecnologias revolucionaram o contexto social e educacional da Sociedade da Informação. Para compreender a aplicação e o uso de novas tecnologias na Educação precisamos fazer uma reflexão de como a leitura de textos mudou. Temos dois momentos: antes e depois da web.

Antes do advento da Internet o texto era lido linearmente. Depois do surgimento da web cada leitor criou o seu processo individual de leitura. Não há mais uma linearidade a ser seguida.

Os hiperlinks e a dinâmica das páginas, vídeos, sites e redes socias não nos permitem mais desfazer o caminho de leitura. Não podemos voltar exatamente o caminho da leitura, ainda que seu navegador permita voltar uma página. O caminho da leitura não pode mais ser traçado exatamente como avançamos para chegar no ponto atual.

Por isso na internet não se lê, mas sim navega-se. É um universo muito amplo que se abre ao leitor. Temos um novo leitor, um novo autor ou co-autor e por consequencia um novo texto.

O processo de aprendizado também mudou. A busca por informações também. Não há um único caminho para encontrar o que precisamos. Não há um pequeno conjunto de fontes, mas uma “avalanche informacional”. Ser cidadão pleno neste novo contexto social e exercer a cidadania ativa não requer mais apenas saber ler, escrever e ter acesso á informação. Precisamos saber localizar e escolher as melhores fontes de informação. É preciso ser autor, estar conectado, colaborar e interagir em grupos, e ter competência em informação. Porém, todos esses aspectos já não são suficientes. Precisamos ter domínio da programação e da lógica que dominam todos os equipamentos eletrônicos, celulares, sites e redes sociais. O acesso à informação mudou e agora não basta escolher as fontes, mas em alguns casos para obter, filtrar e moldar dados e informações relevantes é preciso saber programar. A tendência futura de nossa sociedade é cobrar cada vez mais a necessidade de que um cidadão compreenda os conceitos básicos de programação. Esse é o novo marco da cidadania ativa.

Este é o cenário onde um grupo de alunos e professores começou a realizar uma observação sobre o novo cenário de aprendizado e ensino na sociedade atual. Nossos hábitos e atitudes mudaram. A Internet e as novas tecnologias diminuíram distâncias mas impuseram seu preço. A sociedade em rede se organiza em grupos, colabora, compartilha e interage para a produção e construção de novos saberes. O cidadão precisa ampliar suas competências e habilidades. A sua trilha de aprendizagem e desenvolvimento profissional está mais complexa.

É aqui, neste emaranhado de coisas novas, que surgiu o GRITA. Um coletivo digital que busca a Inovação com Tecnologias Abertas (GRITA). Nosso objetivo é reunir alunos, professores, profissionais e entusiastas por tecnologias abertas e software livre. Trata-se de um grupo que busca promover, mobilizar e difundir o processo de inovação, estudo e emprego de tecnologias abertas no Ensino Superior, e por consequencia na Sociedade.

Esperamos fomentar e acelerar o desenvolvimento de ideias e projetos por meio de comunidades temáticas de colaboração, para que a partir do fortalecimento do tecido social acadêmico, possamos ampliar a difusão e emprego de tecnologias abertas na Sociedade, afinal o aluno do Ensino Superior é um cidadão e futuro profissional do mercado.

Neste contexto buscamos apresentar o Software Livre e as Tecnologias Abertas, bem como as suas possibilidades na busca em potencializar a colaboração, o compartilhamento de conhecimentos e o surgimento de novas comunidades.

Dentro dessas comunidades buscaremos ajudar na construção, debate, diálogo e elaboração de informação e novos conhecimentos que permitam o aprofundamento e apropriação de novos conceitos e habilidades.

Como surgiu?

A ideia de criação do grupo surgiu de uma conversa entre um professor e um grupo de alunos do Ensino Superior dentro de um TAXI, durante o deslocamento para um evento de Software Livre em Porto Alegre, enquanto debatíamos sobre a formação dos profissionais de TI em Brasília.

Quando olhamos a realidade do Ensino Superior de Brasília, do mercado de trabalho na área de tecnologia da informação (TI), do universo dos concursos públicos e das comunidades de Software Livre fica claro a existência um “gap” (buraco / lacuna).

Não há um espaço de integração, troca de experiências e consolidação de conhecimentos para os profissionais da área de TI. Há uma carência na organização de comunidades temáticas de estudo e prática, de networking e relacionamento profissional, assim como uma mobilização para o empreendedorismo e para a aceleração de ideias e projetos de alunos do Ensino Superior com o uso tecnologia da informação, preferencialmente abertas e inovadoras.

Depois desse processo de reflexão e de pensarmos em um nome para o grupo, começamos a trabalhar essa ideia. Apoiados no uso de redes sociais, comunicadores instantâneos ferramentas de colaboracão e software livre iniciamos a contrução do BLOG do coletivo digital #GRITA e de sua rede de colaboração.

A proposta de criação do Grupo para Inovação com Tecnologias Abertas também estava alinhada com outros projetos como uma distribuição GNU/Linux que apoiasse o aluno de cursos de TI no seu processo de formação. Mas era necessário apresentar um diferencial, afinal distribuições existem aos milhares. A distribuição pensada deveria ter, além da customização de ambiente, uma motivação específica. O projeto poderia ajudar a catalogar (gerar um índíce de indicações) bons materiais de estudo sobre cada disciplina ou tema relacionado aos cursos superiores na área de tecnologia, como apostilas, livros, artigos, vídeos, softwares, howtos (receitas de como fazer), cursos gratuitos e tudo mais que pudesse contribuir com o processo de formação de um aluno do ensino superior e que servisse de bibliografia complementar para todas as disciplinas ou áreas temáticas. Essa proposta poderia ser um site, sistema ou um repositório (arquivos e links) que seria colocado na distribuição GNU/Linux customizada, facilitando o acesso à informações relevantes.

Uma outra proposta surgiu com a deia de criar um projeto alinhado a distribuição para que os professores pudessem elaborar materiais e projetos de oficinas em formato aberto (REA – Recurso Educacional Aberto sob licença CC) para suas disciplinas e também disponibilizassem nesta distribuição. Essa iniciativa seria uma ação coletiva e colaborativa, pois pode ser aberta e construída por alunos e professores de todo o Brasil e quem sabe de outros Países.

O processo de colaboração em torno de desse projeto no Brasil pode orbitar diversas outras IES parceiras interessadas em contribuir ou criar esse material… É um projeto a longo prazo. A primeira etapa é um repositório de conhecimentos sobre disciplinas de um Curso Superior de Tecnologia em Análise e Desenvolvimento de Sistemas.

Para manter e potencializar toda essa troca de experiências e informações o #GRITA empregará uma ferramenta de rede social para estabelecer o portal http://colaborar.grita.net.br. Um espaço de construção das comunidades temáticas e do desenvolvimento de trilhas de aprendizagem, onde os participantes poderão trilhar diversos caminhos para a construção e apropriação de novos conhecimentos.

A força de uma rede, ou sua inteligência coletiva, é sempre maior que a de um único ponto ou nó, afinal todo o saber está na humanidade, já que, ninguém sabe tudo, porém todos sabem alguma coisa. A a rede, por meio da mobilização e interação, potencializa a colaboração e a partilha do conhecimento.

A inteligência coletiva aparece na sociobiologia, na ciência política e em contextos específicos como dinâmicas de revisão paritária e aplicações de crowdsourcing. Essa definição mais ampla envolve processos como formação de consenso, capital social, tomada de decisão e capital intelectual. Dentro desse contexto o capital intelectual é o nome dado a toda a informação, transformada em conhecimento que se agrega àqueles que você já possui.

Em economia social, capital social refere-se às normas que promovem confiança e reciprocidade na economia. É constituída por redes, organizações civis e pela confiança compartilhada entre as pessoas, fruto de sua própria interação social. No estudo do Capital Social, é importante compreender a natureza e funcionamento de uma comunidade de prática.

A rede social utilizará a plataforma NOOSFERO, um software de rede social brasileiro, desenvolvido pela Colivre, uma cooperativa de desenvolvimento de software de Salvador/BA.